A campanha “Chega de Fiu Fiu” está fazendo um documentário a
partir da filmagem através de microcâmeras escondidas em óculos. O objetivo é
registrar o ato abusivo e confrontar o agressor, mostrando a ele que aquela
atitude não agrada, não é bem-vinda.
De início parece quase ingênuo. Parece que a pessoa que faz
as gracinhas, as cantadas, já sabe que aquilo é agressão e escolhe a atitude
com o fim claro de incomodar. Portanto, avisá-lo parece bobagem. Mas não é.
Muitas das atitudes que reproduzimos sem pensar, sem
empatia, afetam negativamente o outro sem que nos demos conta. Nossas ações são cotidianamente agressivas e
invasivas. Será que escolheríamos fazer isso se não fosse aceito, ou
simplesmente se fôssemos mais empáticos?
Como o fulano vai saber o quanto é invasivo e agressivo, se
viu isso o tempo todo desde que nasceu? Quem contou prá ele como é ser
destratado desta forma, quem educou?
É claro que os pais e mães de meninas sempre se incomodam
com isso, sempre se preocupam. Mas mesmo se preocupando, ou exatamente por isso,
acabam por educar a menina sobre como se vestir, como se proteger, como se
enfeiar, ou seja, também acreditam que a agressão é direcionada pela beleza,
pela estética, pelo desejo. Só que não é.
A agressão é uma reação mecânica, tribal e social. Não tem quase nada a ver com a pessoa do
agressor e não tem nada a ver com a pessoa agredida. As frases são sempre as
mesmas, repetidas conforme o repertório do fulano, para qualquer ser que seja
identificado com o feminino objeto.
Explicar ao agressor coloca a pessoa agredida no lugar de
sujeito e sujeita o agressor a uma oportunidade para reflexão (sujeito vê outro
sujeito refletido). Abre a porta para a empatia, portanto.
É claro que nada é tão simples (ou melhor, tem muita
complexidade escondida no texto acima e nos objetivos do documentário). Há desdobramentos
de sobra, nos aspectos legais, sociais e psicológicos envolvidos em cada
situação vivida por cada par agressor-agredido. No entanto, o que mais me fez
pensar é a ideia do uso de óculos para tentar corrigir a distorção da visão a
que estamos submetidos.
Pareceu-me lindo e simbólico. Imaginei uma sociedade que
tivesse óculos empáticos, que nos permitisse ver o outro, qualquer outro, a
partir da visão dele mesmo. A expressão inglesa “walk on my shoes” fica pequena
diante desta ideia. Mais que trilhar os mesmos caminhos, mais que reconhecer as
dificuldades pelas quais outros passaram, o desafio empático é ver ou outro
como ele vê a si mesmo e nos ver como o outro nos vê. É sermos sujeito onde o
outro nos sujeita e não sujeitá-lo onde o objetamos. Mudar a sintaxe dos nossos
verbos pode idealmente mudar a forma como nos relacionamos. Essa pode ser a
evolução do uso politicamente correto das palavras. Vai ver que era isso que
pensaram quando propuseram escolher outras palavras para designar as diferenças.
Só que acredito que mudar o adjetivo não basta. É necessário transformar o
sujeito através das suas ações (verbos) e as relações com seus objetos diretos
ou indiretos.
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